Em Miami, Trump convoca o GOP: 'Exaltem minhas conquistas econômicas, as melhores de sempre!' Mas, ele mesmo vive mudando de assunto, sempre.

**Em Discurso em Miami, Trump Exorta o GOP a Propagar Suas Conquistas Econômicas, Mas Ele Próprio Frequentemente Muda de Assunto**
Em um cenário político cada vez mais polarizado e com as eleições de 2024 no horizonte, Donald Trump, o provável candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, continua a ser uma força magnética e imprevisível. Em um recente discurso em Miami, uma cidade que muitas vezes serve como barômetro político e base de apoio fervoroso, Trump fez um apelo claro e enfático ao Partido Republicano (GOP): a mensagem principal da campanha deve ser a exaltação de suas conquistas econômicas durante seu mandato. No entanto, o paradoxo persistente que define sua retórica e estratégia política emergiu mais uma vez: enquanto Trump instrui seus aliados a permanecerem no roteiro econômico, ele próprio é o primeiro a desviar-se para uma miríade de outros tópicos, muitas vezes mais inflamáveis e pessoais.
O chamado de Trump para focar na economia não é sem fundamento. Antes da pandemia de COVID-19, a economia americana sob sua administração apresentava indicadores robustos: taxas de desemprego em mínimos históricos, incluindo para grupos minoritários; um mercado de ações em ascensão contínua; e um crescimento do PIB que, embora não espetacular, era constante. Sua agenda de desregulamentação, juntamente com os cortes de impostos de 2017 (a Lei de Cortes de Impostos e Empregos), foi frequentemente creditada por ele e seus apoiadores como o motor desse desempenho. Para Trump, esses são os trunfos que o diferenciam de seus oponentes democratas, especialmente do atual presidente Joe Biden, cuja administração tem enfrentado desafios persistentes com a inflação e percepções de desaceleração econômica.
A estratégia por trás dessa diretriz é clara: capitalizar sobre a memória de um período de prosperidade econômica e contrastá-la com as atuais ansiedades dos eleitores. Ao enfatizar a "Grande Economia Americana" sob sua liderança, Trump busca ressoar com o eleitorado que valoriza a estabilidade financeira e a oportunidade. Ele pretende pintar um quadro de um passado dourado sob sua égide, prometendo replicar esse sucesso caso seja eleito novamente. Para o GOP, aderir a essa mensagem seria uma forma de unificar as diversas facções do partido e apresentar uma frente coesa contra os democratas, focando em um terreno onde acreditam ter uma vantagem.
No entanto, o problema reside na própria natureza da comunicação de Trump. Conhecido por seu estilo espontâneo e muitas vezes errático, ele raramente se restringe a um roteiro pré-determinado. Em vez de martelar consistentemente a mensagem econômica, Trump invariavelmente se desvia para outros temas que, embora ressoem profundamente com sua base mais leal, diluem a clareza do foco econômico. Esses desvios podem incluir, mas não se limitam a:
1. **Reivindicações de Fraude Eleitoral:** A obsessão com a eleição de 2020 e as alegações infundadas de uma "eleição roubada" continuam a ser um pilar de seus discursos, energizando seus eleitores mais radicais, mas alienando moderados e potencialmente desgastando a confiança nas instituições democráticas.
2. **Ataques Pessoais e Críticas a Oponentes:** Ele dedica uma parcela considerável de seu tempo a criticar vigorosamente seus adversários políticos, tanto democratas quanto republicanos que considera desleais, muitas vezes utilizando apelidos depreciativos e observações incendiárias.
3. **Guerras Culturais:** Tópicos como imigração, identidade de gênero, educação e "wokeness" são frequentemente abordados com fervor, apelando à base conservadora que se sente ameaçada por mudanças sociais.
4. **Questões Legais Pessoais:** As múltiplas acusações criminais e ações civis que enfrenta são frequentemente transformadas por ele em um ponto de discussão, apresentando-se como vítima de uma "caça às bruxas" política, em vez de focar em propostas de política.
5. **Política Externa e Teorias da Conspiração:** Embora menos frequente em discursos internos, Trump também pode se desviar para críticas a alianças internacionais ou para a promoção de teorias da conspiração que circulam entre seus apoiadores.
Esses desvios não são meros acidentes retóricos; eles são, em grande parte, uma parte integrante da persona política de Trump. Para seus apoiadores, sua capacidade de falar sem filtros e abordar esses tópicos controversos é um sinal de autenticidade e força, uma rejeição à "política tradicional". Para a mídia, esses momentos são frequentemente mais "noticiáveis" do que a repetição de dados econômicos, garantindo-lhe ampla cobertura (muitas vezes negativa, mas cobertura nonetheless). No entanto, para o objetivo declarado de fixar a narrativa em suas conquistas econômicas, essa constante mudança de assunto é um obstáculo significativo.
O dilema para o GOP é palpável. Como podem os congressistas, senadores e outros líderes do partido ecoar a mensagem econômica de Trump, conforme solicitado, quando o próprio líder do partido a subverte constantemente? A disciplina de mensagem, uma pedra angular de qualquer campanha política bem-sucedida, torna-se um desafio hercúleo quando a figura central da campanha é notoriamente indisciplinada em sua comunicação. Os republicanos que tentam aderir estritamente à narrativa econômica correm o risco de serem ofuscados pelas últimas controvérsias geradas por Trump, ou de parecerem desalinhados com a energia dominante de sua base.
Em última análise, a exortação de Trump em Miami revela uma tensão fundamental em sua estratégia política. Ele compreende o valor de uma mensagem econômica forte e positiva para atrair eleitores e contrastar com seus oponentes. No entanto, sua própria natureza como comunicador – impulsiva, combativa e focada em galvanizar a lealdade de sua base através de temas que vão muito além da economia – o impede de seguir o conselho que ele próprio dá. Enquanto ele continuar a pular de um tópico para outro, a tarefa de seus colegas republicanos de vender consistentemente suas "conquistas econômicas" permanecerá uma das mais desafiadoras e, por vezes, frustrantes, da política americana contemporânea. A campanha de 2024, portanto, promete ser menos sobre um roteiro cuidadosamente orquestrado e mais sobre a navegação constante através das marés imprevisíveis da retórica trumpista.
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