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José Antonio Kast, candidato de extrema-direita, torna-se o favorito para a presidência do Chile, após os resultados da primeira volta da votação.

**A Virada Conservadora no Chile: José Antonio Kast Lidera a Corrida Presidencial Após o Primeiro Turno**

O cenário político chileno passou por uma reviravolta sísmica nas eleições presidenciais de 2021, culminando na surpreendente ascensão de José Antonio Kast, candidato de extrema-direita, ao posto de favorito para se tornar o próximo presidente da nação andina após liderar o primeiro turno. Este resultado não apenas chocou observadores e analistas, mas também ressaltou a profunda polarização e a busca por respostas que varrem o Chile desde o "estallido social" de 2019. A eleição se configura como um plebiscito sobre o futuro do país, confrontando duas visões de mundo radicalmente opostas.

Os resultados do primeiro turno, realizado em 21 de novembro de 2021, mostraram Kast, líder do Partido Republicano, conquistando cerca de 27,9% dos votos válidos, superando seu principal adversário, Gabriel Boric, da coalizão de esquerda "Apruebo Dignidad", que obteve aproximadamente 25,8%. A margem, embora pequena, foi suficiente para solidificar a narrativa de uma guinada à direita em um país que, até então, parecia inclinado a abraçar reformas progressistas e uma nova Constituição. A expressiva votação de Kast demonstrou o cansaço de uma parcela significativa da população com a instabilidade, a criminalidade e a polarização exacerbada pós-protestos, encontrando em suas propostas uma promessa de ordem, segurança e retorno a valores tradicionais.

**Quem é José Antonio Kast? Um Retrato Ideológico e Político**

José Antonio Kast não é um nome novo na política chilena, mas sua ascensão meteórica ao posto de principal candidato representa uma guinada significativa e, para muitos, inesperada. Advogado de formação e ex-deputado, Kast é o caçula de dez irmãos de uma família de imigrantes alemães com histórico ligado à direita conservadora. Sua trajetória política começou na União Democrática Independente (UDI), um partido historicamente vinculado ao regime militar de Augusto Pinochet, do qual se desligou para fundar o Partido Republicano.

A plataforma de Kast é marcadamente conservadora nos costumes e liberal na economia, com um forte pendor para a "lei e ordem". Entre suas propostas mais emblemáticas estão:

* **Segurança Pública:** Implementação de uma "mão dura" contra a criminalidade, com o aumento de poderes para as forças policiais, militarização de algumas áreas e a promessa de construir novas prisões e endurecer penas. Ele defende uma política de "tolerância zero" e critica veementemente a permissividade que, segundo ele, se instalou no país.
* **Imigração:** Uma política migratória restritiva, incluindo a construção de uma vala na fronteira com a Bolívia para conter a imigração ilegal, e a deportação de estrangeiros que cometerem crimes.
* **Economia:** Defesa de um modelo econômico neoliberal com redução de impostos, diminuição do tamanho do Estado e privatização de empresas estatais. Ele promete atrair investimentos e estimular o crescimento, criticando as propostas de maior intervenção estatal e aumento de gastos públicos da esquerda.
* **Valores Sociais:** Posições socialmente conservadoras, com oposição ferrenha ao aborto, ao casamento igualitário e a políticas de gênero. Ele se apresenta como um defensor da família tradicional e dos valores cristãos, que, em sua visão, estão sendo erodidos por ideologias progressistas.
* **Legado de Pinochet:** Kast é um dos poucos políticos chilenos a defender abertamente o legado da ditadura de Augusto Pinochet, elogiando aspectos econômicos e de ordem do regime, embora reconheça violações de direitos humanos. Essa postura o torna uma figura altamente controversa e divide profundamente a sociedade chilena, mas também mobiliza uma base de eleitores nostálgicos daquele período.

Sua retórica é direta, por vezes combativa, e tem sido eficaz em mobilizar eleitores descontentes com a política tradicional e apreensivos com o futuro do país. Kast se dirige a um eleitorado que anseia por estabilidade, ordem e um retorno a um passado percebido como mais seguro e próspero.

**O Contexto Chileno Pós-Estallido Social: A Exaustão e a Busca por Ordem**

A ascensão de Kast não pode ser compreendida sem o pano de fundo do "estallido social" de 2019. Aqueles protestos massivos, que começaram por um aumento no preço da passagem do metrô e escalaram para uma explosão de demandas sociais por igualdade, justiça e o fim de um modelo econômico percebido como desigual, levaram o Chile a um processo de escrita de uma nova Constituição. A Constituinte, eleita em 2021, é majoritariamente composta por forças progressistas e independentes, com uma forte presença feminina e indígena.

No entanto, o anseio por mudança veio acompanhado de um período de grande instabilidade social, violência em manifestações, vandalismo e um aumento perceptível da criminalidade em diversas cidades. Muitos chilenos, exaustos pela polarização, pela sensação de insegurança e pela percepção de que o país estava à deriva, começaram a buscar alternativas. O governo de Sebastián Piñera, de centro-direita, enfrentou dificuldades em controlar a situação e sua aprovação despencou.

Nesse vácuo de ordem e governabilidade, a mensagem de Kast encontrou terreno fértil. Sua promessa de "restaurar a ordem", combater a criminalidade com rigor e frear o que ele descreve como um avanço do "comunismo" e de "ideologias radicais" ressoou com setores da classe média e alta, com idosos, com habitantes de zonas rurais e com aqueles que se sentem ameaçados pela crescente insegurança e pela instabilidade econômica. Para esses eleitores, Kast representa a voz da razão e da estabilidade em meio ao caos.

**O Adversário: Gabriel Boric e a Polarização Radical**

Do outro lado do espectro político está Gabriel Boric, ex-líder estudantil e deputado, que representa a esquerda mais jovem e progressista do Chile. Sua plataforma defende uma profunda transformação do modelo neoliberal chileno, com o fortalecimento do Estado na provisão de serviços públicos, um sistema de previdência social mais robusto, aumento de impostos para os mais ricos e grandes empresas, e uma agenda ambiental e de direitos humanos abrangente. Boric simboliza as aspirações do "estallido social" por um Chile mais igualitário e justo.

A escolha que se apresenta aos chilenos no segundo turno é, portanto, entre dois projetos de país radicalmente distintos. Kast representa a restauração de uma ordem conservadora, com um Estado mínimo na economia e forte em segurança, defendendo valores tradicionais. Boric, por sua vez, propõe uma profunda reforma do Estado, com um modelo social-democrata, maior proteção ambiental e o avanço de direitos sociais e individuais.

**Os Desafios para o Segundo Turno**

O segundo turno, a ser realizado em 19 de dezembro de 2021, será um verdadeiro cabo de guerra. Ambos os candidatos terão o desafio de expandir sua base eleitoral e conquistar os votos dos eleitores que apoiaram os demais candidatos no primeiro turno, que incluíram desde a centro-esquerda (Yasna Provoste) até a centro-direita (Sebastián Sichel), além de candidatos mais populistas.

Kast precisará moderar sua imagem para atrair o eleitorado de centro-direita que votou em Sichel e convencer aqueles que, embora busquem ordem, se incomodam com sua defesa de Pinochet e suas posturas mais radicais. Boric, por sua vez, terá que tranquilizar o eleitorado de centro-esquerda e parte do centro que teme radicalismos e a instabilidade econômica que suas propostas poderiam gerar, enfatizando a necessidade de um projeto de país mais inclusivo e solidário.

A abstenção pode ser um fator decisivo. No primeiro turno, a participação foi de cerca de 47%, indicando que quase metade do eleitorado chileno não foi às urnas. A mobilização desses eleitores desiludidos ou apáticos será crucial para definir o resultado.

**Conclusão**

O Chile se encontra, inegavelmente, em uma encruzilhada histórica. A ascensão de José Antonio Kast ao posto de favorito após o primeiro turno reflete uma sociedade dividida, que oscila entre a demanda por profundas mudanças sociais e o anseio por estabilidade, ordem e segurança. A eleição presidencial de 2021 será um divisor de águas, não apenas para a política chilena, mas também para o processo de escrita da nova Constituição e para a direção que a nação andina tomará nas próximas décadas. Independentemente do resultado, a eleição já marcou um momento de profunda redefinição para o Chile, evidenciando a complexidade e as contradições de uma sociedade em busca de seu próprio futuro.

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