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Um dos medicamentos mais antigos do mundo para combater a pressão alta pode também deter o crescimento agressivo de tumores cerebrais.

## Um dos Fármacos Mais Antigos para a Pressão Arterial Pode Conter o Crescimento de Tumores Cerebrais Agressivos

No reino da medicina, onde a inovação muitas vezes significa anos de investigação, biliões de dólares e a descoberta de moléculas totalmente novas, ocasionalmente surge uma reviravolta inesperada. Uma das notícias mais promissoras na luta contra o cancro agressivo nos últimos tempos não provém de um laboratório de biotecnologia de ponta a criar uma terapia genética revolucionária, mas sim de um dos mais antigos e ubíquos fármacos da farmacopeia moderna: um medicamento para a pressão arterial que tem vindo a ser prescrito há décadas. Descobertas recentes sugerem que este humilde composto, amplamente conhecido pela sua eficácia no controlo da hipertensão, pode ter a capacidade notável de travar o crescimento de tumores cerebrais altamente agressivos, como o glioblastoma.

O glioblastoma é um dos cancros mais devastadores e difíceis de tratar. Caracterizado pela sua agressividade, rápida proliferação e capacidade de infiltrar-se profundamente no tecido cerebral, este tipo de tumor cerebral oferece um prognóstico sombrio, com uma taxa de sobrevivência mediana de apenas 15 a 18 meses, mesmo com as terapias mais avançadas disponíveis. A cirurgia é frequentemente impossível de ser totalmente curativa devido à natureza difusa do tumor, e as células cancerígenas desenvolvem rapidamente resistência à radioterapia e quimioterapia. A barreira hematoencefálica, um mecanismo de proteção natural do cérebro, torna ainda mais desafiador para muitos medicamentos atingirem as células tumorais em concentrações terapêuticas. Diante deste cenário desolador, a procura por novas e eficazes abordagens é constante e urgente.

É neste contexto que a revelação de que um medicamento para a pressão arterial existente e de baixo custo possa ter um impacto significativo ressoa com uma esperança renovada. Embora a investigação ainda esteja nas suas fases iniciais, os resultados são suficientemente convincentes para justificar um maior escrutínio e, eventualmente, ensaios clínicos. O medicamento em questão pertence à classe dos diuréticos tiazídicos, como a hidroclorotiazida, um pilar no tratamento da hipertensão arterial há mais de 60 anos. Estes fármacos funcionam principalmente aumentando a excreção de sódio e água pelos rins, o que ajuda a reduzir o volume de sangue e, consequentemente, a pressão arterial. São seguros, baratos, bem compreendidos em termos de efeitos secundários e amplamente disponíveis em todo o mundo.

A descoberta das suas propriedades anticancerígenas ocorreu em grande parte através de estudos de triagem de medicamentos ou de observações inesperadas em investigações que visavam outros mecanismos celulares. A ciência por trás desta potencial nova aplicação reside na intrincada biologia das células cancerígenas, que frequentemente exibem dependências metabólicas e iónicas distintas das células saudáveis. Os tumores, incluindo o glioblastoma, frequentemente apresentam alterações no transporte de iões e na regulação osmótica, que são cruciais para a sua proliferação, migração e sobrevivência.

Uma das hipóteses chave é que estes diuréticos podem interferir com canais iónicos específicos ou transportadores de membrana que são sobre-expressos ou desregulados em células de glioblastoma. Por exemplo, a inibição de certas bombas de sódio ou canais de cloreto pode levar a um desequilíbrio iónico dentro da célula tumoral, induzindo stress osmótico e, consequentemente, apoptose (morte celular programada). As células cancerígenas são notavelmente sensíveis a perturbações no seu ambiente interno, e a capacidade de um fármaco de "enganá-las" para que morram, simplesmente alterando o seu equilíbrio hídrico ou iónico, é uma estratégia potente.

Além disso, alguns diuréticos tiazídicos demonstraram inibir enzimas como a anidrase carbónica, que desempenha um papel na regulação do pH e no metabolismo celular. Muitos tumores, incluindo o glioblastoma, operam num ambiente ácido e dependem da anidrase carbónica para manter o seu equilíbrio interno. Ao perturbar esta enzima, o medicamento pode dificultar a capacidade do tumor de proliferar e sobreviver. Outras vias de sinalização, como a via AKT, que é frequentemente hiperativa em muitos cancros e promove o crescimento e a sobrevivência celular, também podem ser moduladas por estes fármacos, embora os mecanismos exatos ainda estejam a ser desvendados.

As provas iniciais vêm de estudos *in vitro* (em culturas de células) e *in vivo* (em modelos animais, como ratos). Em ensaios de laboratório, as células de glioblastoma tratadas com estes diuréticos mostraram uma diminuição significativa na proliferação e um aumento na morte celular. Em modelos de xenoenxerto em ratos, onde células de glioblastoma humanas são implantadas, a administração do diurético levou a uma redução notável no tamanho do tumor e, crucialmente, a um aumento na sobrevivência dos animais. Estes resultados são particularmente emocionantes porque sugerem que o medicamento pode atravessar a barreira hematoencefálica em quantidades suficientes para exercer um efeito terapêutico no cérebro.

As implicações desta descoberta são potencialmente revolucionárias. Em primeiro lugar, oferece uma nova esperança para pacientes com glioblastoma e outros tumores cerebrais agressivos que enfrentam opções de tratamento limitadas. Em segundo lugar, a reutilização de um fármaco existente (um conceito conhecido como "drug repurposing") tem vantagens significativas. Fármacos antigos já passaram por testes extensivos de segurança e toxicidade, o que acelera drasticamente o processo de desenvolvimento e reduz os custos associados. Em vez de décadas e biliões, um fármaco reutilizado pode chegar aos pacientes em apenas alguns anos, se os ensaios clínicos forem bem-sucedidos. O custo acessível destes diuréticos também significa que se tornariam uma opção de tratamento viável para uma população muito mais ampla, incluindo regiões com recursos limitados.

No entanto, é crucial temperar este otimismo com cautela. A transição de estudos pré-clínicos para ensaios clínicos em humanos é um passo complexo e desafiador. As doses necessárias para atingir um efeito anticancerígeno podem ser mais altas do que as usadas para tratar a hipertensão, levantando questões sobre a tolerabilidade e os potenciais efeitos secundários em longo prazo nestas novas concentrações. Será essencial identificar biomarcadores que possam prever quais pacientes com glioblastoma responderão melhor a esta terapia. Além disso, a estratégia mais provável será usar estes diuréticos em combinação com terapias existentes (como radioterapia ou quimioterapia) para alcançar um efeito sinérgico e maximizar a eficácia.

Em suma, a descoberta de que um dos fármacos mais antigos e comuns para a pressão arterial pode ter a capacidade de conter o crescimento de tumores cerebrais agressivos é um testemunho da natureza imprevisível e fascinante da investigação científica. Representa um farol de esperança na luta contra uma das doenças mais letais, demonstrando o poder do "drug repurposing" e a importância de olhar para o que já temos com um novo olhar. Enquanto aguardamos os resultados dos futuros ensaios clínicos em humanos, esta revelação sublinha que, por vezes, as soluções mais promissoras podem estar à nossa frente, escondidas à vista de todos, à espera de serem redescobertas. A jornada é longa, mas a possibilidade de transformar um medicamento comum num poderoso aliado contra o cancro é, sem dúvida, um dos desenvolvimentos mais emocionantes e cheios de potencial na medicina moderna.

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